A Fé de Abraão contra a Fé de Paulo

Analisando o conceito de Fé elaborado por Paulo baseado na Fé de Abraão.

Abraão e Isaac

Com a expansão do cristianismo entre os não judeus, uma pergunta era constantemente levantada entre os membros dessa nova comunidade. Devemos ou não cumprir os preceitos da Torá (Instrução)? Tenha em mente que, naqueles dias o “novo testamento” não tinha sido produzido e a única referência que tinham eram as escrituras Hebraicas (Gênesis a Malaquias).

Em diversos momentos, o “novo testamento” apresenta essa questão ente os não judeus, isso inclusive causou dissensão entre eles. Após a reunião dos líderes a decisão tomada foi que, somente aos Judeus se manteria o cumprimento da Torá, enquanto aos não judeus, as 7 Leis universais de Noé.

Debate entre os discípulos de jesus.

“Portanto, julgo que não devemos pôr dificuldades aos não judeus que estão se aproximando de D’us. Pelo contrário, devemos escrever a eles, dizendo-lhes que se abstenham de comida contaminada pelos ídolos, da imoralidade sexual, da carne de animais estrangulados e do sangue.” (Atos dos Apóstolos 15:19-20)

Mas, Paulo não estava satisfeito com isso, pois de acordo com seu entendimento, mesmo os Judeus que se convertessem (ao ‘’cristo’’ Jesus) deveriam abandonar a Torá. Seu argumento era que a justificação só era possível através da Fé e não do cumprimento das Leis.

Mas o que significa Fé de acordo com Paulo?

Em uma de suas principais cartas, Paulo escreve à comunidade cristã da Galácia (Ásia Menor) tentando dissuadi-los de cumprir os preceitos da Torá, para convencê-los de que a justificação vinha através da Fé e não da Torá, Paulo traz o exemplo de Abraão.

“Considerem o exemplo de nosso Pai Abraão: Ele teve fé em D’us, e isso lhe foi creditado como justiça. Estejam certos, portanto, de que os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão. Prevendo a Escritura que D’us justificaria pela fé os não judeus, anunciou primeiro as boas novas a Abraão: ‘Por meio de você todas as nações serão abençoadas’. Assim, os que são da fé são abençoados juntamente com Abraão, homem de fé.” (Gálatas 3:6-9).

Como entendemos do verso acima, Abraão foi considerado justo simplesmente porque “creu em D’us”. Paulo instruiu aos não judeus da Galácia que a única coisa que deveriam fazer era crer em D’us, assim como Abraão o fez. Paulo continua então ensinando que, como resultado da fé de Abraão, ele recebeu uma promessa de D’us, onde sua descendência se multiplicaria e as nações seriam abençoadas através dele.

“Farei de você um grande povo, e o abençoarei. Tornarei famoso o seu nome, e você será uma bênção. Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei os que o amaldiçoarem; e por meio de você todos os povos da terra serão abençoados”. (Gênesis 12:2-3).

D’us não concorda com Paulo. De acordo com a Torá, a fé de Abraão não era simplesmente acreditar em D’us. Afinal de contas, D’us falava constantemente com ele, portanto acreditar que D’us existia não era grande mérito. É certo dizer que porque Abraão creu, D’us se manifestou para ele. Mas lembre-se que foi muito mais do que crer, Abraão se entregou completamente a D’us, desafiando toda a geração em que viveu. Mas Torá deixa claro o que era a fé de Abraão e o porque D’us lhe fez a promessa acima.

“Tornarei sua semente tão numerosa como as estrelas do céu e lhes darei todas estas terras; e por meio da sua semente todos os povos da terra serão abençoados, porque Abraão Me obedeceu e guardou Meus preceitos, Meus mandamentos, Meus decretos e Minhas Leis”. (Gênesis 26:4-5).

A Torá deixa claro que a promessa feita a Abraão sobre sua descendência, e a grande benção que seriam, veio, não porque Abraão creu em D’us somente, mas porque guardou seus mandamentos. A fé de Abraão é inteiramente ligada ao cumprimento dos mandamentos. Alguém poderia pensar que Abraão, ou qualquer Judeu cumpriria a Torá sem crer em D’us? Sabemos também que outras pessoas daquela época acreditavam em D’us, como vimos o exemplo de Malki-Tzédek (Melquisedeque), rei de Salém, que a Torá o chama de “sacerdote do D’us Altíssimo” (Gênesis 14:18). Mesmo assim, a promessa foi feita a Abraão e não a Malki-Tzedek, e a razão para isso foi sua fidelidade no cumprimento das Leis de D’us.

Mas Paulo consegue piorar ainda mais seu argumento. Como vimos no trecho citado da carta aos Gálatas, Paulo alega que “os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão”. Paulo quer dizer com isso, que os seguidores da nova fé, eles é quem são os filhos de Abraão, e através “deles” e não dos Judeus (seus descendentes biológicos) os povos seriam abençoados. Veja como Paulo manuseia as Escrituras para montar seu argumento.

“Ora, as promessas foram feitas a Abraão e à sua semente. A Escritura não diz: ‘E às suas sementes’, como se falando de muitos, mas: ‘à sua semente’, dando a entender que se trata de um só, isto é, Cristo.” (Gálatas 3:16).

Paulo se aproveitando de uma audiência não-judaica, e sem o menor conhecimento de hebraico, cria uma argumentação fantasiosa. Ele argumenta que, se a “semente” de Abraão fossem “muitos”, ou seja, o povo Judeu, a Torá escreveria “sementes” no plural e não no singular. O fato de que a Torá escreve no singular é uma indicação de que se refere à um descendente específico. Nesse caso, ‘’Jesus’’. Paulo então conclui que como a promessa veio antes da Torá, a mesma não poderia ser anulada pela Lei. Portanto crendo em Jesus, a “semente de Abraão”, estaríamos ligados à promessa e livres da Lei.

“Assim, a Lei foi o nosso tutor até Cristo, para que fôssemos justificados pela fé. Agora, porém, tendo chegado a fé, já não estamos mais sob o controle do tutor…E, se vocês são de Cristo, são descendência de Abraão e herdeiros segundo a promessa.” (Gálatas 3:24-29).

Mas essa argumentação é fraudulenta. Como podemos constatar, a Torá sempre usa a palavra “semente” em hebraico “zerah” (זֶרַע ) como designação para todo o povo de Israel e não “sementes”.

Vejamos alguns desses versos.

“Então D’us respondeu: Na verdade Sarah, sua mulher, lhe dará um filho, e você lhe chamará Isaque. Com ele estabelecerei a minha aliança, que será aliança eterna para sua semente (זַרְעוֹ ) após ele.” (Gênesis 17:19).

“Tornarei a sua semente (זַרְעֲךָ ) tão numerosa como o pó da terra.Se for possível contar o pó da terra, também se poderá contar a sua semente (זַרְעֲךָ ).” (Gênesis 13:16).

“Disse mais o anjo: “Multiplicarei tanto a sua semente (זַרְעֵךְ ) que ninguém os poderá contar”.(Gênesis 16:10).

“Esteja certo de que o abençoarei e farei sua semente (זַרְעֲךָ ) tão numerosa como as estrelas do céu e como a areia das praias do mar. Sua semente (זַרְעֲךָ ) conquistará as cidades dos que lhe forem inimigos” (Gênesis 22:17).

“Tornarei sua semente (זַרְעֲךָ ) tão numerosa como as estrelas do céu e lhes darei todas estas terras; e por sua semente (בְזַרְעֲךָ ) todos os povos da terra serão abençoados.” (Gênesis 26:4).

“Também levaram os seus rebanhos e os bens que tinham adquirido em Canaã. Assim Jacó foi para o Egito com toda a sua semente (זַרְעוֹ ).” (Gênesis 46:6).

“Vendo, pois, Atalia, mãe de Acazias, que seu filho era morto, levantou-se, e destruiu toda a semente (זֶרַע) real.” (2 Reis 11:1).

“Porventura, ó nosso D’us, não lançaste fora os moradores desta terra de diante do Teu povo Israel, e não a deste para sempre para a semente (לְזֶרַע ) de Abraão, Teu amigo?” (2 Crônicas 20:7).

Como conseguimos comprovar, em todos os casos acima a Bíblia usa a palavra “semente” em relação a muitos. De acordo com o argumento de Paulo como poderia uma semente, no singular, ser tão numerosa como o pó da terra ou como as estrelas do céu?

Porque nos versos acima D’us não se expressou como Paulo nos explicou e disse “sementes” ao invés de “semente”?

Obviamente porque o argumento de Paulo é falso e foi usado para convencer uma comunidade que não tinha meios para o contrariar. Da mesma forma acontece hoje, com milhões de não judeus, que reféns de traduções como essas, são enganados diariamente.

Por isso Paulo fracassou na conversão de Judeus e se nomeou o “Apóstolo dos não judeus”. Em sua nova função se tornou extramente bem sucedido e trouxe muitos a crerem em sua nova fé. Mas os verdadeiros Judeus, verdadeiros descendentes de Abraão carregam uma promessa dada por D’us e um pacto feito com nossos antepassados ao pé da letra !

“Saibam, portanto, que o Eterno, o seu D’us, Ele é D’us; o D’us fiel, que mantém a aliança e a bondade por mil gerações daqueles que o amam e guardam os seus mandamentos…Se vocês obedecerem a essas ordenanças, as guardarem e as cumprirem, então o Eterno, seu D’us, manterá com vocês a aliança e a bondade que prometeu sob juramento aos seus antepassados.” (Deuteronômio 7:9-12).

Ao analisarmos os relatos do Novo Testamento, em contraste com as alegações missionárias, encontramos algo interessante. A grande maioria das supostas profecias que Jesus cumpriu, se referem à sua morte. Mas Jesus no Novo Testamento, exigiu que as pessoas acreditassem nele enquanto ainda estava vivo. Imagine que as grandes passagens missionárias naquele momento não podiam ser usadas para provar a messianidade de Jesus. Ou seja, ninguém poderia citar Isaías 53, Salmo 22, Zacarias 12, etc.

Então que sinais poderiam ser apresentados? Porque um Judeu, vivendo em Israel naqueles dias deveria acreditar em Jesus?

Talvez porque ele nasceu de uma virgem? Se esse realmente é um sinal messiânico então deveria ser de conhecimento comum. Todos deveriam ficar surpresos com tamanho milagre. No mínimo essa criança seria acompanhada de muito perto. Mas o próprio Novo Testamento aponta para o fato de que esse acontecimento não era de conhecimento comum. A verdade é que, se realmente aconteceu, ninguém sabia, nem João Batista, que era seu parente próximo (veja Mateus 11:1-4). Talvez,então, porque ele nasceu em Belém? Mas de novo, além de não ser um sinal messiânico o Novo Testamento indica que as pessoas também não reconheciam isso. Afinal, todos sabiam que Jesus e sua família vinham de Nazaré, por isso ficou conhecido como Jesus de Nazaré. Vejam esse episódio relatado no livro de João:

“Então muitos da multidão, ouvindo esta palavra, diziam: Verdadeiramente este é o Profeta. Outros diziam: Este é o Messias; mas outros diziam: Vem, pois, o Messias da Galiléia? Não diz a Escritura que o Messias vem da descendência de Davi, e de Belém, da aldeia de onde era Davi? Assim entre o povo havia dissensão por causa dele.” (João 7:40-43).

Se era de conhecimento comum que Jesus era de Belém, qual a razão da dissensão acima? E se não era de conhecimento comum, como alegar que esse era um dos sinais que o legitimaria? Não é a toa que Paulo e os outros evangelhos jamais mencionam o nascimento por uma virgem em Belém como sinais da messianidade de Jesus.

Uma terceira tentativa seria mostrar que Jesus era descendente dos reis David e Salomão. Mas mesmo isso aparentemente não era comprovado. Veja no mesmo verso citado acima como as pessoas questionam sua descendencia. Outro problema é que mesmo o Novo Testamento se atrapalha em apresentar essa prova e nos trazem duas genealogias diferentes e contraditórias. Compare Mateus cap. 1 com Lucas cap. 3.

Ou seja, em todo o Novo Testamento Jesus tentou provar que era o Messias de Israel através da realização de milagres e não cumprimento de profecias. Mesmo quando os discípulos de João Batista o questiona, milagres são os únicos sinais que ele apresenta (Mateus 11:1-4) Mas Bíblia jamais ensina que seremos capazes de identificar o Messias pelos milagres que ele fará. A razão é que mesmo os falsos profetas podem ter a capacidade de realizar milagres (veja Deuteronômio 13:1-5). Mesmo as escrituras cristãs reconhecem que falsos Messias podem fazer milagres sobrenaturais:

“Pois aparecerão falsos messias e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos.” (Mateus 24:24).

Milagres não provam que uma determinada religião é verdadeira, porque pessoas de todas as crenças religiosas experimentaram milagres. Isto também é verdade sobre sentimentos subjetivos como alegria e satisfação espiritual.

Nenhuma religião tem o monopólio sobre eles. Ao invés disso devemos fazer uso de nossa maior ferramente que é o intelecto. Devemos colocar tudo à prova, questionar e buscar entender. Ao analisarmos corretamente as Escrituras veremos que Jesus não cumpriu nenhuma das profecias messiânicas.