Belém ou Nazaré? De onde ele vem?

Analisando a profecia de Miquéias e as evidências do nascimento de Jesus.

Cidede de Beit Lechem (Belém)

Cidede de Beit Lechem (Belém)

É sempre naquela mesma data do ano, que vemos espalhados pela cidade um cenário montado com bonecos representando o nascimento de Jesus. De acordo com a tradição cristã, Jesus nasceu na cidade de Belém em Judá, cumprindo uma profecia de Miquéias apontando ela como cidade natal do Messias. Mas será que Miquéias quis dizer isso mesmo? E será que Jesus realmente nasceu lá? Afinal de contas ele ficou conhecido como Jesus de Nazaré, e não de Belém.

O relato do nascimento de Jesus é um pouco, na verdade muito confuso. No livro de Mateus a família de Jesus já está em Belém onde ele nasce (Matesu 2:1). De lá ele foge de Herodes para o Egito, e no seu retorno á Terra de Israel ele vai para Nazaré. Ai vem a melhor parte. Aqui, de acordo com o autor do livro de Mateus, Jesus veio para Nazaré para cumprir uma profecia:

Tendo sido avisado em sonho, retirou-se para a região da Galiléia e foi viver numa cidade chamada Nazaré. Assim cumpriu-se o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.” (Mateus 2:22-23).

Porque essa é a melhor parte? Simplesmente porque essa profecia não existe em lugar algum. Isso mesmo, eles inventaram essa profecia. Aliás, Nazaré não existia na época dos profetas e nunca foi mencionada na Bíblia. Pastores e Teólogos cristãos não encontraram até hoje uma explicação no mínimo razoável para esse problema.

Já o livro de Lucas tem outra versão. De acordo com seu autor, a família de Jesus é de Nazaré, na Galiléia (Lucas 1:26), e da lá vão para Belém para que ele possa nascer no local previsto pela profecia. Depois que ele nasce, eles vão para Jerusalém, agradecer o nascimento do filho e de Jerusalém voltam para a casa em Nazaré (Lucas 2:39).

Espera ai! E o Egito? Eles não foram para o Egito fugindo de Herodes??? De acordo com Lucas, não. E a profecia sobre Nazaré? Porque Lucas não falou nada sobre isso? Talvez, porque ele soubesse que, tal profecia não existisse.

Apesar de Mateus já começar com a família de Jesus em Belém, Lucas tem outros planos. Veja como, de acordo com Lucas, Jesus foi parar em Belém:

Naqueles dias César Augusto publicou um decreto ordenando o recenseamento de todo o império romano… E todos iam para a sua cidade natal, a fim de alistar-se. Assim, José também foi da cidade de Nazaré da Galiléia para a Judéia, para Belém, cidade de Davi, porque pertencia à casa e à linhagem de Davi.” (Lucas 2:1-4).

Segundo Lucas, o imperador romano fez um censo de todo o império. Como entendemos, o propósito do censo era saber qual a população de cada cidade sobre controle do império. Mas Lucas foge dessa lógica e alega que todos voltavam para cidade natal de onde vinha sua própria linhagem. Se seguirmos o exemplo de José, ele foi para Belém por ser descendente de David. Ou seja, ele voltou em mais de mil anos sua genealogia para localizar sua cidade natal. Imagina a confusão que foi então, pessoas viajando de um lado para outro, se alistando na cidade onde seus antepassados, a mais de mil anos atrás nasceram. O pior, imagina o resultado desse censo. Que benefício traria para o imperador essa informação?

O que fica claro dessa história é que a família de Jesus era de Nazaré. Mas o autor dessa história não queria que Jesus nascesse lá e sim em Belém. Esse interesse não existe nos autores dos livros de Marcos e João. Paulo também não se preocupa com isso. Mas porque Mateus e Lucas fizeram questão de colocar o nascimento de Jesus lá? Mateus responde alegando que o local do nascimento do Messias foi anunciado pelo profeta Miquéias.

E eles lhe disseram: Em Belém de Judéia; porque assim está escrito pelo profeta: E tu, Belém, terra de Judá, De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel.” (Mateus 2:5-6).

De acordo com a interpretação do Novo Testamento, o Messias teria que nascer na cidade de Belém. Portanto, Jesus nascendo lá, teria isso como sinal que comprovaria sua legitimidade como Messias. Ou seja, se isso realmente fosse uma profecia messiânica, ela só poderia funcionar se as pessoas pudessem identificar que ele realmente nasceu lá. Se tudo mundo soubesse disso ficaria evidente que essa profecia se cumpriu. Por isso que ele ficou conhecido naquela época como Jesus de Belém. Espera aí! Ele não ficou conhecido assim e sim Jesus de Nazaré. Mas será que o Novo Testamento não indica que as pessoas soubessem disso? Vamos ver:

Toda a cidade se alvoroçou, dizendo: Quem é este? A multidão respondia: Este é o profeta Jesus, de Nazaré da Galiléia.” (Mateus 21:11).

Este homem estava com Jesus, o Nazareno“. (Mateus 26:71).

Filipe achou Natanael, e disse-lhe: Havemos achado aquele de quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José. Disse-lhe Natanael: Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?” (João 1:45-46)

Presta bem atenção nessa passagem:

Então muitos da multidão, ouvindo esta palavra, diziam: Verdadeiramente este é o Profeta. Outros diziam: Este é o Messias; mas outros diziam: Vem, pois, o Messias da Galiléia? Não diz a Escritura que o Messias vem da descendência de Davi, e de Belém, da aldeia de onde era Davi? Assim entre o povo havia dissensão por causa dele.” (João 7:40-43).

Porque havia dissensão entre o povo? De acordo com o livro de João alguns entendiam que o Messias tinha que vir de Belém, enquanto outros não. Mas e daí, se Jesus nasceu em Belém isso não seria problema para os que não entendem a profecia desse jeito. Ou seja, se alguém não interpreta a profecia de Miquéias como um requerimento, que mal tem se ele nasceu em Belém? Na verdade quem teve problema com isso foram aqueles que acreditavam que o Messias deveria nascer em Belém. De acordo com eles não havia evidência qualquer de que Jesus teria cumprido essa profecia. Pelo contrário, Jesus era conhecido como natural de Nazaré e não de Belém. Por isso discordaram do restante.

Acima foram citados apenas alguns de muitos versos que mostram que Jesus era conhecido como natural de Nazaré e não de Belém. Aliás, em todos os momentos que o nome de Jesus é ligado à um local, esse local é Nazaré. Nunca Belém. Se isso de fato foi uma profecia messiânica cumprida por Jesus, porque então não ficou evidente? Afinal de contas, como já discutimos antes, um sinal é uma marca identificadora, e o sinal que ele apresentou não foi esse.

É interessante observar que quando, tanto João Batista quanto os Fariseus, pedem a Jesus um sinal, ele apresenta milagres. Porque não apresentou uma certidão de nascimento, provando que nasceu de uma virgem, em Belém e que era descendente de David? Se esses são “sinais” deveriam ter a possibilidade de serem apresentados.

Então se a profecia de Miquéias não era sobre o nascimento do Messias em Belém, o que ela quer nos dizer então?

Vamos começar comparando a versão de Mateus com a oficial do profeta Miquéias:

E tu, Belém, terra de Judá, De modo nenhum és a menor entre as capitais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar o meu povo Israel.” (Mateus 2:5-6).

E tu, Belém-Efrata, embora deveria ser a menor entre os clãs de Judá, de ti sairá para Mim para ser um governante sobre Israel e sua origem está no passado distante, em tempos antigos.” (Miquéias 5:2).

Com uma simples leitura dos dois versos, podemos ver que o autor do livro de Mateus alterou alguns detalhes da profecia. Lendo a versão original de Miquéias vemos que ele diz sobre Belém que ela deveria ser a menor entre os clãs de Judá.

A quem ela se refere? Ao rei David. Como sabemos foi lá que ele nasceu, e conforme conta sua história, quando o profeta Samuel foi à Belém ungir o novo rei, a família de David nem sequer o chamou (I Samuel 16).

A família de David era conhecida como a menor entre os clãs de Judá, por David ser descendente de Rute, a moabita. (Rute 4:13-22). De acordo com a Torá (Deuteronômio 23:3) nenhum moabita poderia ser aceito como convertido em Israel. Mas nossos sábios na época interpretaram que isso se aplicava somente aos homens moabitas e não as mulheres. Portanto a conversão de Rute seria válida.

Isso causou grande discussão entre os Judeus e, somente com a unção de David, pelo profeta Samuel que essa discussão se encerrou. Ficou claro para todos a interpretação dos sábios e portanto a validade da conversão de Rute.

Portanto o profeta Miquéias nos diz, que da descendência daquele que saiu de Belém sairia também o futuro Messias. Por isso que o verso conclui dizendo “sua origem (do Messias) está no passado distante, em tempos antigos (dias do Rei David).

A origem do Messias vinha de tempos antigos, ou seja, quando o rei David nasceu em Belém, dali já originou o Messias de Israel. Por isso que Mateus cortou o final do verso, pois não queria associar a origem de Jesus com dias antigos e sim com o divino.

E por isso também, muitas traduções cristãs escrevem o final de Miquéias como: “desde os dias da eternidade” (Miquéias 5:2 versão Almeida Revisada).

Fica claro com isso que a profecia não exige que o nascimento do Messias seja em Belém. Ela simplesmente remonta sua conexão com o passado e sua origem no rei David.

E Saul lhe perguntou: De quem você é filho, meu jovem? Respondeu Davi: Sou filho de teu servo Jessé, de Belém“. (1 Samuel 17:58).

Que o verdadeiro Messias venha logo, nossos dias!