E aconteceu na Páscoa… ou não???

Um Estudo sobre as contradições do Novo Testamento sobre a morte de Jesus e o verdadeiro significado da Páscoa.

Em alguns dias, Judeus do mundo inteiro celebrarão a Festa de Pessach, conhecida como a Páscoa Judaica (se é que realmente existe outra). Nessa data é comum as atividades missionárias se intensificarem. Uma das razões para isso é a crença de que a crucificação e ressurreição de Jesus ocorreu na Páscoa. Não só isso, mas também muitos cristãos alegam que a Páscoa Judaica, nada mais é do que uma alusão ao sacrifício de Jesus, que aconteceria milênios depois.

Todo mundo conhece a famosa pintura de Leonardo Da Vinci, “A Última Ceia”. Se perguntarmos a qualquer cristão o que Jesus e seus discípulos estão fazendo nessa cena, todos dirão: O seder de Pesach! Jesus está comemorando a festa de Pesach com seus discípulos e anunciando que sua morte se aproxima. Aqui encontramos um conflito interessante. Sabemos que D’us nos ordena na Torá, a celebrar a festa de Pesach na noite do dia 15 do mês de Nissan.

No primeiro mês, aos catorze dias do mês, pela tarde, é Pesach para o Eterno. E aos quinze dias deste mês é a Festa dos Pães ázimos do Eterno; sete dias comereis pães ázimos.” (Levítico 23:5-6)

De acordo com a Torá, no dia quatorze a tarde, cada um do povo Judeu deveria sacrificar um cordeiro ou um cabrito para ser comido na primeira noite de Pesach, dia 15 (veja Ex.12). Lembrando que a primeira noite de Pesach começa ao anoitecer do dia 14 de Nissan, entrando então o dia 15. De acordo com os evangelhos Sinóticos* (Mateus, Marcos e Lucas), foi nessa noite que Jesus fez sua última refeição. Vejamos:

No primeiro dia da festa dos pães ázimos, os discípulos dirigiram-se a Jesus e lhe perguntaram: Onde queres que preparemos a refeição da Páscoa?…O Mestre diz: O meu tempo está próximo. Vou celebrar a Páscoa com meus discípulos em sua casa. Os discípulos fizeram como Jesus os havia instruído e prepararam a Páscoa. Ao anoitecer, Jesus estava reclinado à mesa com os Doze.” (Mateus 26:17-20).

E, no primeiro dia dos pães ázimos, quando sacrificavam a páscoa, disseram-lhe os discípulos: Aonde queres que vamos fazer os preparativos para comer a páscoa?… E, saindo os seus discípulos, foram à cidade, e acharam como lhes tinha dito, e prepararam a páscoa. E, chegada a tarde, foi com os doze. E, quando estavam assentados a comer…” (Marcos 14:12-18).

Chegou, porém, o dia dos ázimos, em que importava sacrificar a páscoa. E mandou a Pedro e a João, dizendo: Ide, preparai-nos a páscoa, para que a comamos… E, indo eles, acharam como lhes havia sido dito; e prepararam a páscoa. E, chegada a hora, pôs-se à mesa, e com ele os doze apóstolos. E disse-lhes: Desejei muito comer convosco esta páscoa, antes que padeça.” (Lucas 22:7-15).

De acordo com esses três livros, após celebrarem a Páscoa, Jesus é capturado e levado a julgamento. No dia seguinte, Jesus é condenado e crucificado, morrendo pouco antes de anoitecer. Mas tem alguém que discorda dessa história. Ninguém menos do que o autor do quarto evangelho, João.

O autor do livro de João tinha outros planos. Sua intenção era descrever a morte de Jesus como um sacrifício de expiação pelos pecados da humanidade. Sendo assim, ele decidiu então comparar Jesus com o sacrifício de Pesach, ou melhor, o cordeiro de Pesach. No começo de seu livro veja como ele descreve o encontro entre João Batista e Jesus:

No dia seguinte João (Batista) viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.” (João 1:29).

Veja agora um detalhe sobre a morte de Jesus em João, que não consta nos outros livros. Para apressar a morte dos crucificados, os romanos quebravam as pernas dos condenados, acelerando assim o sufocamento. Mas com um deles isso não aconteceu:

Foram, pois, os soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que como ele fora crucificado; Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas… Porque isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura, que diz: Nenhum dos seus ossos será quebrado.” (João 19:32-36).

Essa “profecia” citada na verdade não é uma profecia, e sim, uma das leis sobre o sacrifício de Pessach, onde nenhum dos ossos poderia ser quebrado (Êx 12:46; Nm 9:12). Perceba então, como o autor de João cria o paralelo entre Jesus e o Cordeiro de Pessach. Portanto, ele não poderia concordar com os outros evangelhos do Novo Testamento. Se os outros 3 livros estão certos, então a morte de Jesus ocorreu no dia seguinte à refeição de Pessach, quando o cordeiro já tinha sido sacrificado (na tarde do dia anterior). Eliminando assim seu paralelo.

Encontramos outro problema para João com os 3 primeiros livros.

Na noite do dia 15, Jesus e seus discípulos estavam comendo o sacrifício de Pessach, junto com os pães ázimos, os copos de vinho e as ervas amargas. Durante a refeição Jesus ensina claramente que o vinho representa seu sangue, que seria derramado e o pão, seu corpo, que seria entregue como sacrifício. Em nenhum momento ele menciona a carne do cordeiro como representação do seu corpo ou do sacrifício que faria.

(Mt 26:26-28; Mc 14:22-24; Lc 22:19-20)

Por essa razão, no livro de João encontramos outra narração da sua morte. No início do capítulo 13 o autor descreve que a “última ceia” não foi a refeição de Pessach, e sim, uma refeição comum.

Veja como ele inicia o capítulo: “Ora, antes da festa da páscoa…” (João 13:1).

Nessa noite não tinham pães ázimos, vinhos, ervas ou cordeiro. Mas nela Jesus lava os pés dos discípulos e anuncia que seria traído por um deles (nos outros livros Jesus anuncia isso durante a refeição de Páscoa). Judas, o traidor, deixa o recinto com medo de ser descoberto, mas os outros discípulos pensam que ele saiu para comprar comida para a festa do dia seguinte.

Porque, como Judas tinha a bolsa, pensavam alguns que Jesus lhe tinha dito: Compra o que nos é necessário para a festa..” (João 13:29).

O livro de João também deixa claro, que a morte de Jesus ocorreu na tarde do dia 14, e não do dia 15 como nos outros livros.

Era o Dia da Preparação da Páscoa, por volta da hora sexta (meio dia).” (João 19:14).

O autor de João queria deixar claro que, a morte de Jesus ocorreu no mesmo momento em que os cordeiros de Pessach eram sacrificados. Ou seja, na véspera.

Conseguimos ver, com toda essa contradição entre seus autores, que o Novo Testamento não é uma fonte confiável. Como conciliar duas datas claramente conflitantes? Jesus não pode ter morrido em dois dias diferentes! Não existe argumentação lógica possível, para explicar esse conflito de informações.

importante observar que em nenhum momento a Torá descreve o sacrifício de Pessach como sacrifício de expiação por pecados. Pelo contrário, aprendemos no início do livro de Levítico que os sacrifícios são classificados por categorias. Os sacrifícios de pecado estão na categoria mais alta chamada de Kodesh Kodashim (Santo dos Santos), enquanto o de Pessach, na categoria mais baixa, Kodashim Kalim (Menor Santidade).

Outro ponto que derruba esse paralelo é que, conforme ensinado em Levítico, os sacrifícios de pecados cometidos pelo povo deveriam ser fêmeas.

Se uma alma do povo da terra pecar por erro, por fazer um dos preceitos do Eterno, daqueles que não se deve fazer, e se tornar culpado. Se lhe for conhecido depois o pecado que cometeu, trará por sacrifício uma cabrita, sem defeito, pelo pecado que cometeu…E se de cordeiro for seu sacrifício de pecado, fêmea será, sem defeito trará.” (Levítico 4:27-32).

Agora vamos ver, como a Torá nos explica o significado real do sacrifício de Pessach:

Quando os seus filhos lhes perguntarem: O que significa esta cerimônia? Respondam-lhes: É o Sacrifício de Pessach para o Eterno, que saltou (pasach) sobre as casas dos filhos de Israel no Egito e poupou nossas casas quando feriu os egípcios.” (Êxodo 12:26-27).

Se o Novo Testamento está certo, então a resposta deveria ser diferente. Deveríamos pelo menos, ser orientados a dizer a nossos filhos, que esse sacrifício representa o Messias, que no futuro seria morto para redimir nossos pecados.

Sabemos também que em Levítco 16, a Torá nos ensina que, o dia em que se trazia o sacrifício de expiação de pecados era Yom Kippur (Dia de Expiação) e não Pessach. Pessach não tem nenhuma relação com expiação de pecados.

Mas vemos logo no primeiro livro da Torá, como nossos patriarcas anunciam o sacrifício de Pessach. Quando Isaque é levado para ser entregue como oferta de elevação ele pergunta:

Então falou Isaque a Abraão seu pai, e disse: Meu pai! E ele disse: Eis-me aqui, meu filho! E ele disse: Eis aqui o fogo e a lenha, mas onde está o cordeiro para a oferta de elevação? E disse Abraão: D’us proverá para si o cordeiro para a oferta de elevação, meu filho. Assim caminharam ambos juntos… Então levantou Abraão os seus olhos e olhou; e eis um carneiro detrás dele, travado pelos seus chifres, num mato; e foi Abraão, e tomou o carneiro, e ofereceu-o em holocausto, em lugar de seu filho.” (Gênesis 22:7-13).

Repare que Isaque pergunta sobre o cordeiro e D’us lhes entrega um carneiro. Nossos sábios explicam que o cordeiro a que Abraão se refere quando disse, “D’us proverá para si um cordeiro“, esse é o cordeiro de Pessach.

Da mesma forma que Abraão passou por um grande teste ao levar seu filho, assim também o povo Judeu seria testado ao sacrificar o deus egípcio, o cordeiro. E fazer isso explicitamente, sem temer os egipícios, espalhando o sangue pelas portas para todos verem. Aqueles que passaram no teste mereceram a redenção. Que sejamos nós também, merecedores da redenção, e que esse Pessach seja celebrado em Jerusalém, com o verdadeiro Messias.