IV – As contradições que a trama neotestamentária não conseguiu apagar

4.1 O simples exame dos escritos do “Novo Testamento”, que servem de base para a fé de cerca de dois bilhões de seres humanos, dá conta de que não resistem a uma análise até singela. Pela aplicação do método de Shlomoh, para a interpretação dos textos sagrados, “comparado uma coisa com outra, para a respeito delas formar o meu juízo” (Kohelet Esclesiaates) 7:27, Verificaremos que cada comparação, seja dos textos do “Novo Testamento” com os do TANA”CH (a Bíblia Judaica), bem como nos próprios textos da bíblia cristã entre si, a confusão é grande, ‘as vezes as discrepância chegam a ser ridículas. O lamentável é que há judeus se voltando para essas coisas espúrias, abandonando o povo escolhido, justamente quando os sinais da chegada do verdadeiro Mashiaach já apontam o despertar da era Messiânica. Por isso, a necessidade de uma reeducação de famílias de judeus assimilados, ou em processo de abandono da Torah, para que tomem conhecimento do perigo espiritual que estão correndo, ao acreditarem em mentiras e tramas nem sequer bem urdidas.

4.2 Como judeu, além do método de Shlomoh, acima mencionado, temos as “Treze Regras do Rav Yishmael”, para a segurança das interpretações (Ver Sidur da ED. Sêfer, pp. 302, 303). Usando-se esse método, qualquer tentativa para colher alguma conciliação entre os textos neotestamentários mostra-se debalde.

Realmente, o “Novo Testamento” deve ser abandonado como literatura inexpressiva, em questões de Revelação Divina! A total desarmonia entre os textos cristãos e até mesmo com a história secular é gritante; a cronologia não consegue acompanhar os eventos e não raro evidencia uma estranha necessidade de fazer-se opção entre teses antagônicas. Esse quadro é também evidente em discrepância doutrinárias. Assim, por exemplo, um membro da Igreja Adventista pode encontrar, no “Novo Testamento”, respaldo para não comer comidas imundas (2 Coríntios 6:17, 18; 7:1); mas, um membro da igreja batista também encontrará guarida para o ensino de que é possível comer comidas proibidas pela Torah (Ver 1 Coríntios 10:25; Marcos 7:18-20). É possível acreditar que não é necessário nenhuma caridade para um crente salvar-se (Efésios 2:8,9; Romanos 4:5), como é possível verificar que outro escritor exige as boas abras para a salvação! (Tiago 2:14-26) ao que tudo indica, a oração do Nazareno, em favor da unidade de fé dos seus seguidores, não foi ouvida! (João 17:20-23). É difícil conciliar as várias doutrinas cristãs em conflito, no elenco de suas diversas seitas antagônicas, e retirar do “Novo Testamento” algo que pudesse compelir com a nossa Torah simplesmente não sobra nada!

4.3 Uma maneira de compreender bem a triste situação do “Novo Testamento” é levantar-se a contextualização dos ensinos, a partir dos evangelhos, do livro de atos, das cartas e do livro do Apocalipse. A surpresa é grande, diante de tantas contradições. Nesse sentido, recordamos o que escreveu o discípulo Lucas, ao dizer que pesquisara todas as coisas para fazer seu relato evangélico: “Visto que muitos houve que empreenderam uma narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram, conforme nos transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e ministros da palavra, igualmente a mim me pareceu bem, depois de ACURADA INVESTIGAÇÃO DE TUDO DESDE SUA ORIGEM, dar-te por escrito, excelentíssimo Teófilo, UMA EXPOSIÇÃO EM ORDEM, para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído” (Lucas 1:1-4). A impressão que se tem, logicamente, é que o Evangelho de Lucas, diante de tais palavras, esgotou todo o ensino de Jesus e seria mais completo do que todos os demais evangelhos. Mas isso não é verdade. Trata-se de claro sofisma.

4.4 Com efeito, o mais importante milagre de Jesus, relatado no Evangelho de João, ou seja, a ressurreição de lázaro, após quatro dias de decomposição de seu cadáver (João 11:1-53), não mereceu uma única linha no Evangelho de Lucas, apesar de ele Ter feito uma “acurada investigação de tudo desde sua origem”. Seria Lucas o “o médico armado” mencionado por Paulo como um de seus companheiros e viagem? (Colossenses 4:14). Nesse caso, como médico, Lucas não engoliu a magnitude desse assombroso milagre. Ou nada havia, na época em que compôs seu relato, sobre esse fantástico fenômeno sobrenatural. É estranho ainda, o fato de ter Lucas deixado de incluir, em seu exaustivo trabalho, nada menos que quartoze parábolas de Jesus, encontradas em outros evangelhos: 1) a do joio; 2) a do tesouro escondido; 3) a pérola de grande valor; 4) a rede de pescar; 5) o pai de família e o tesouro; 6) o credor exigente; 7) os trabalhadores; 8) os dois filhos; 9) as bodas; 10) as dez virgens; 11) os dez talentos; 12) as ovelhas e os bodes; 13) o pai de família e os servos; 14) e a semente (ver Mateus 13:24-30:13:44-52; 18:23-35; 20:1-16; 21:28-32; 22:1-14; 25:1-46). Lucas também – como os demais evangelistas sinópticos – não incluiu a história da mulher adúltera, relata em João 8:1-11, embora esse relato, antes de estar no Evangelho de João já tivesse sido exposto no Evangelho de Lucas e dali retirado. Segundo a antologia de Lewis Browne, Sabedoria de Israel, essa história é de origem grega. A simples leitura desse texto, porém induz o leitor a inferir que Jesus acreditou que uma mulher fosse capaz de adulterar sozinha, ou ele era machista e parcial, pois nada perguntou sobre o homem adúltero (ver Devarim [Deuteronômio] 22:22); o relato insinua que o Templo Sagrado possuía chão, sem piso, onde Jesus pudesse escrever (João 8:2, 6, 8), e apresenta a condenação da mulher como procedimento que pudesse ser levado à execução sem o pronunciamento dos juizes! (Devarim 1:16, 17; 16:18-20). Não admira que tal texto esteja sendo expulso do “Novo Testamento” como espúrio!

4.5 Por isso, causa perplexidade a simples leitura de explicação, como a do Dr. Lucas, de que seu evangelho conteria “tudo desde sua origem”, toda a história e ensinos do Nazareno. Mas Lucas equivocou-se, ou certamente não teve acesso a muitos escritos sobre Jesus, hoje conhecidos, porque somente seriam escritos muito mais tarde, por supostos discípulos, que não tendo escrito nada, tornaram-se famosos escritores mesmo assim. Veja-se, por exemplo, o caso do pseudônimo dado ao apóstolo João, sem que nada comprove ser ele o tal “discípulos que Jesus amava” (João 13:23; 19:26; 20:2; 21:24). Seria mesmo João esse discípulo tão destacadamente amado? Ora, esse título especial jamais caberia a João, e sim, como de todos sabido, ao discípulo Lázaro, sobre quem está escrito: “Mandaram, pois, as irmãs de Lázaro dizer a Jesus: Senhor, está enfermo aquele a quem amas” (João 11:3). Esse amor era muito particular. Quando Lázaro morreu, Jesus chorou, e veio o reconhecimento desse amor pelos presentes: “Vede o quanto o amava” (João 11:36). Assim, o único discípulo a merecer tal distinção era Lázaro, não João. Por ser o discípulo amado e destacado protagonista dessas histórias, que se encontram no atual Evangelho de João, inclusive a de sua própria ressurreição, desconhecida dos demais evangelistas, Lázaro está muito mais habilitado a ser o autor de grande parte desse evangelho, particularmente porque, tendo ressuscitado, conforme o relato, seria sobre ele mais apropriada lenda de que “o discípulo a quem Jesus amava… não morreria” (João 21:20-23). Com isso, constatamos que até mesmo a autoria dos relatos não é fidedigna. Quanto mais seu conteúdo e veracidade histórica!

4.6 Quanto ao elenco de contradições, desarmonia entre si e inúmeras agressões aos textos do Tana”ch, o ”Novo Testamento” é incomparável. Talvez somente o Corão – livro sagrado dos muçulmanos, que confunde Miriam, irmã de Moisés, com Maria, mãe de Jesus – possui mais sandices. Adiante, uma pequena lista desse triste cenário que, a bem da verdade, desautoriza ser o “Novo Testamento” uma Palavra do Criador para a Humanidade. De fato, da Torah foi dito: “A Torah do Eterno é perfeita e restaura a alma; o Testemunho do Eterno é fidedigno, e dá sabedoria aos simples. Os Preceitos do Eterno são corretos e alegram o coração; o Mandamento do Eterno é puro e ilumina os olhos” (Tehilim 19:8, 9, texto hebraico). Com forte certeza, aprendemos, como judeus, que na Torah, nos Profetas e nas Escrituras inspiradas, dadas aos nosso Povo, “não há nenhuma coisa contraditória, nem perversa. Todas são corretas, para quem as entendem justas, para os que acham o conhecimento” (Mishley [Provérbios] 8:8, 9). O mesmo, evidentemente, não se pode dizer do “Novo Testamento”.