Jesus previsto no Tanach

Muitas pessoas me perguntam? Afinal, quem de fato era Jesus? Para responder essa pergunta quero analisar duas passagens interessantes no Tanach (Bíblia Hebraica). Uma delas muito conhecida no livro Devarim (Deuteronômio) e outra já não tão conhecida no profeta Zechariah (Zacarias).

Vamos começar com o texto de Devarim. Em Parashat Reê (capítulo 13:2 a 6) a Torá nos adverte sobre a vinda de um suposto profeta. O texto segue:

2. Quando se levantar no meio de ti um profeta, ou um sonhador, e te der um sinal ou um milagre. 3. E vier o sinal ou o milagre de que te falou e te disser: “Vamos após outros deuses, que não conheceste, e sirvamo-los!”
4. Não obedecerei às palavras daquele profeta ou daquele sonhador; porque o Eterno, vosso D-us, vos está experimentando para saber se amais o Eterno, vosso D-us, com todo coração e com toda vossa alma.
5. Após o Eterno, vosso D-us, andareis, a Ele temereis, Seus mandamentos guardareis e a Sua voz ouvireis. A Ele servireis e nele vos unireis.
6. E esse profeta ou esse sonhador será morto, porque falou perversão em nome do Eterno, que vos tirou da terra do Egito e que vos redimiu da casa dos escravos, para vos desviar do caminho que vos ordenou o Eterno, vosso D-us, para andar nele; e eliminarás o mal do meio de ti.” (Deuteronômio 13:2-6)

No texto acima vemos que D-us pretende testar nosso amor e fidelidade enviando falsos profetas no nosso meio. Alguém que apareceria apresentando sinais e milagres e tentaria dessa forma comprar nossa fidelidade e validar sua mensagem. Com esse teste D-us “saberia” se nosso relacionamento com Ele é fundamentado em amor ou interesses. Será que em momentos de grandes dificuldades deixaríamos de guardar os mandamentos da Torá em troca de uma rápida e fácil solução?

A verdadeira intenção desse profeta está clara, desviar os Judeus da Torá e leva-los atrás de uma nova mensagem. Sempre que eu leio esse trecho me vem em mente uma passagem do Novo Testamento. Essa história está escrita no livro de Mateus 11:2-15.

Um dos mais importantes personagens do NT se chama João Batista. Uma pessoa carismática que atraiu seguidores e ficou conhecido por chamar as pessoas para se arrependerem de seus pecados e retornarem para D-us. Jesus declara que João Batista é Eliahu HaNavi (Elias), nosso tão esperado profeta que, de acordo com o profeta Malachi (Malaquias) 3:23, vem anunciar a chegada de Mashiach (Messias).

Por circunstâncias descritas no livro João Batista foi preso e do cárcere ouve falar de Jesus. Ele então envia seus discípulos para perguntar: “És tu aquele que estava para vir ou devemos esperar outro? E Jesus, respondendo, disse-lhes: Ide, e anunciai a João as coisas que ouvis e vedes: Os cegos veem, e os coxos andam; os leprosos são limpos, e os surdos ouvem; os mortos são ressuscitados, e aos pobres é anunciado o evangelho.

Antes de mais nada, se João Batista é Eliahu HaNavi ele não precisa perguntar se Jesus é o Messias. Disso vamos falar mais tarde, agora vamos ao que importa. Qual a resposta que ele envia a João Batista? Milagres estão sendo realizados e o evangelho (sua mensagem) anunciado. Vamos analisar que mensagem é essa que ele estava anunciando.

Em uma discussão com os Judeus ele afirma: “Não há nada, fora do homem, que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai dele isso é o que contamina o homem.” (Marcos 7:15) E conclui no verso 19: “E assim considerou ele puros todos os alimentos.” Esse evangelho contraria os ensinamentos da Torá que mostram que comer alimentos proibidos são uma abominação para nossa alma. Esses versos têm sido usados como base para os seguidores de Jesus defenderem o fato de que não precisam mais guardar as leis de Kashrut.

Além disso, Jesus declara ser o único caminho para um relacionamento com D-us.
Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14:6) Alegando dessa maneira que o único caminho para servir a D-us vinha através dele e não do cumprimento dos mandamentos divinos.

Outro acontecimento se deu quando durante uma tempestade em alto mar, seus discípulos estavam em um barco e viram Jesus andando sobre as águas. Quando ele entra no barco a tempestade para e veja como os discípulos reagiram: “Então aproximaram-se os que estavam no barco, e o adoraram, dizendo: És verdadeiramente o Filho de Deus.” (Mateus 13:33) O discípulos acharam que por causa de milagres e sinais Jesus deveria ser adorado e o mesmo permite que o façam.

Em outro momento quando discursando para as pessoas a sua volta ele diz: “Falou-lhes, pois, Jesus outra vez, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida.” (João 8:12) Mas será que D-us concorda com isso? Não de acordo com a Bíblia. No livro de Provérbios 6:23 está escrito:

(Ki Ner Mitzva V’Torá Or) כִי נֵר מִצְוָה וְתוֹרָה אוֹר
“Porque o mandamento é uma Lâmpada e a Torá é a Luz

Na primeira passagem que lemos a Torá deixa claro: “Após o Eterno, vosso D-us, andareis, a Ele temereis, Seus mandamentos guardareis e a Sua voz ouvireis. A Ele servireis e nele vos unireis.” A D-us somente devemos seguir, adorar e servir, isso é nossa vida e a Torá o seu caminho prescrito.

Esses são alguns entre muitos outros ensinamentos de Jesus que nos levam a crer que ele era o “sonhador” anunciado na Torá. Sua capacidade de realizar milagres foi dada (vs. 3) para testar da nossa fidelidade a D-us. Prova maior é o fato de que, como resultado de seus ensinamentos, hoje observamos uma comunidade que segue um deus (trindade) que não conhecemos e que certamente não é o D-us de Israel. Além disso devemos nos perguntar, onde foram parar os Judeus que seguiram a Jesus durante todos esses anos?

Mas não é só isso. O Tanach ainda continua e nos leva a um evento futuro onde Jesus aparecerá novamente. Isso mesmo, Jesus vai voltar, mas veja o contexto.

O profeta Zechariah traz uma profecia que tem deixado muitos cristãos de cabelo em pé e causado alterações nas traduções como forma de desviar o contexto. O profeta anuncia que no fim dos tempos, quando Mashiach vier, os falsos profetas serão colocados em julgamento. Nessa hora muitos deles tentarão se desviar e negar as acusações. O mais interessante é que o profeta destaca um deles dizendo:

ד. וְהָיָה | בַיוֹם הַהוּא יֵבשֹוּ הַנְבִיאִים אִיש מֵחֶזְינֹוֹ בְהִנָבְאתֹוֹ וְלֹא יִלְבְשוּ אַדֶרֶת שֵעָר לְמַעַן כַחֵש:
ה. וְאָמַר לֹא נָבִיא אָנכִֹי אִיש עבֵֹד אֲ דָמָה אָנכִֹי כִי אָדָם הִקְנַנִי מִנְעוּרָי:
ו. וְאָמַר אֵלָיו מָה הַמַכוֹת הָאֵלֶה בֵין יָדֶיךָ וְאָמַר אֲשֶר הֻכֵיתִי בֵית מְאַהֲבָי:

4. E acontecerá naquele dia que os profetas se envergonharão,
cada um da sua visão, a qual profetizaram;
e não mais se vestirão de manto de pele, para enganarem.
5. Mas ele dirá: Não sou profeta, sou lavrador da terra;
porque certo homem ensinou-me a guardar o gado
desde a minha mocidade.
6. E alguém perguntará: Que feridas são estas nas tuas mãos?
Dirá ele: São feridas com que fui ferido na casa dos meus amigos.
(Zechariah 13:4-6)

Em uma conversa com um missionário ele abre a sua Bíblia, mostra essa passagem e me pergunta: Quem teve suas mãos feridas na casa dos seus supostos amigos? Sua alegação, correta, se referia a Jesus, tendo suas mãos pregadas na cruz como resultado de uma traição dos seus amigos, os Judeus.

Pedi para ele ler o capítulo do começo e bastou alguns segundos para seus olhos arregalarem e começar a engasgar. Um erro muito comum entre os cristãos, pegar versos e isolarem do contexto. Em muitas vezes um tiro no pé.

Como resultado disso, hoje muitas traduções cristãs tem buscado alterar um detalhe do verso para os leitores não mais associarem o falso profeta com Jesus. Veja como os Católicos traduzem na Bíblia de Jerusalém da Edições Paulinas:

6. E se lhe disserem: Que feridas são essas em teu peito?
Ele responderá: Aquelas que recebi na casa de meus amigos.”
Já os evangélicos traduzem assim na Bíblia
NVI – Nova Versão Internacional:
“6. Se alguém lhe perguntar:
‘Que feridas são estas no seu corpo?
ele responderá: ‘Eu fui ferido na casa de meus amigos’.

Sua tentativa é mostrar que os falsos profetas faziam incisões no corpo enquanto profetizavam. Traduzindo a palavra “iadecha” (mãos) do hebraico como “peito” ou “corpo” eles desviam a analogia óbvia e apresentam outro contexto. O problema é que a palavra não pode ser interpretada como peito nem como corpo, mas quem vai perceber, certo?

Todo mundo conhece a expressão: “Como Tomé, tem que ver para crer.” Tomé era um dos discípulos de Jesus e essa expressão vem de uma história do NT no livro de João. Logo depois da “ressureição” de Jesus ele aparece para seus discípulos mas Tomé não estava presente.

Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu.
Os outros discípulos lhe disseram: Vimos o Senhor! Mas ele lhes disse: Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei.” (João 20:24-25)

Uma semana depois Jesus aparece para Tomé.

E Jesus disse a Tomé: Coloque o seu dedo aqui; veja as minhas mãos. Estenda a mão e coloque-a no meu lado. Pare de duvidar e creia.” (João 20:27)

Me pergunto se vai ser Tomé que na profecia de Zechariah vai perguntar mais uma vez: “Que feridas são estas nas tuas mãos?’’