O Silêncio do Servo

Analisando o julgamento de Jesus e a contradição entre os Sinóticos e o livro de João.

Um dos erros que os cristãos cometem ao lerem o Novo Testamento, é o de encarar os quatro evangelhos como um único e coerente relato. Se, ao invés de ler em sequência, livro após livro, o leitor cruzar evento por evento, vai encontrar uma surpresa.

Já aprendemos isso ao analisar os relatos sobre a morte de Jesus. Vimos como os evangelhos sinóticos* (Mateus, Marcos e Lucas) discordam de João ao descrever a data e momento da crucificação.

Nesse artigo, vamos analisar como também discordam sobre o julgamento e sua falsa associação com o Servo Sofredor de Isaías 53.

No capítulo 52 e 53 do livro de Isaías, o profeta descreve o povo de Israel como um servo que sofreu pelas iniquidades do mundo. Em um próximo estudo, vamos entender melhor a profecia e seu verdadeiro significado. No momento quero analisar um dos versos e questionar a interpretação cristã.

כַשֶה לַטֶבַח יוּבָל וּכְרָחֵל לִפְנֵי גזְֹזֶיהָ נֶאֱלָמָה וְלֹא יִפְתַח פִיו ז נִגַש וְהוּא נַעֲנֶה וְלֹא יִפְתַח פִיו
Ele foi oprimido e afligido, contudo não abriu a sua boca; como um cordeiro para o matadouro foi levado, e como uma ovelha que diante de seus tosquiadores fica calada, ele não abriu a sua boca.” (Isaías 53:7)

Missionários insistem que essa passagem é uma profecia clara sobre o julgamento de Jesus. Em todas as principais versões cristãs da Bíblia, essa passagem inclui um comentário associando esse verso com o julgamento de Jesus. Para nos provar isso eles mostram o relato do julgamento de acordo com os evangelhos sinóticos.

Então o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus: Você não vai responder à acusação que estes lhe fazem? Mas Jesus permaneceu em silêncio.” (Mateus 26:62-63)

Depois o sumo sacerdote levantou-se diante deles e perguntou a Jesus: Você não vai responder à acusação que estes lhe fazem? Mas Jesus permaneceu em silêncio e nada respondeu.” (Marcos 14:60-61).

Apesar de Lucas também fazer parte do evangelhos sinóticos, seu autor não menciona esse episódio. Isso já levanta uma importante questão: Porque o autor não achou importante incluir em seu relato, uma das profecias mais usadas no cristianismo? Sabemos historicamente, que uma das fontes utilizadas pelo autor de Lucas para escrever seu livro, foi o próprio evangelho de Marcos (primeiro dos quatro evangelhos a ser escrito por volta do ano 70 d.e.c). Portanto o autor teve acesso a esse trecho mas decidiu não incluí-lo.

De qualquer maneira, percebemos a associação óbvia, que os autores de Mateus e Marcos criaram. Jesus é acusado mas não responde às suas acusações. Sofre em silêncio, como disse o profeta Isaías. Mas será que ele ficou mesmo em silêncio? Já que Lucas nada diz a respeito, vejamos então o que João, o último relato do Novo Testamento sobre o episódio, tem a dizer.

E o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e da sua doutrina. Jesus lhe respondeu: Eu falei abertamente ao mundo; eu sempre ensinei na sinagoga e no templo, onde os judeus sempre se ajuntam, e nada disse em oculto. Para que me perguntas a mim? Pergunta aos que ouviram o que é que lhes ensinei; eis que eles sabem o que eu lhes tenho dito. E, tendo dito isto, um dos servidores que ali estavam, deu uma bofetada em Jesus, dizendo: Assim respondes ao sumo sacerdote?” (João 18:19-22).

Como conciliar o relato de Marcos, “nada respondeu“, com o de João “Jesus lhe respondeu“? E como conciliar os diálogos de Jesus com seus acusadores em João, com a passagem de Isaías 53? Não é a toa então que todos os comentários cristãos em Isaías 53, mencionam Mateus 16 e Marcos 14, mas ignoram João 18 completamente.

Historiadores alegam que o relato dos eventos não foi transmitido pelos discípulos de Jesus aos autores do Novo Testamento. O próprio Novo Testamento mostra que o único discípulo presente era Pedro, que fica no pátio fora da casa, logo é acusado de ser parte do grupo e foge.

Veja o que acontece no momento em que Jesus é preso. “Então todos o abandonaram e fugiram… Pedro o seguiu de longe até o pátio do sumo sacerdote. Sentando-se ali com os guardas, esquentava-se junto ao fogo.” (Marcos 14:50-54)
Mateus (26:56-58) e Lucas (22: 54-55) concordam com esse verso, mas João acrescenta um discípulo ao lado de Pedro.

Simão Pedro e outro discípulo estavam seguindo Jesus. Por ser conhecido do sumo sacerdote, este discípulo entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, mas Pedro teve que ficar esperando do lado de fora da porta. O outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, voltou, falou com a moça encarregada da porta e fez Pedro entrar.” (João 18:15-16).

A maioria dos comentaristas e teólogos cristãos concordam que o “outro discípulo” mencionado aqui é João. Historiadores comprovam que o livro de João não foi escrito por João. Apesar disso, existe uma tradição cristã de que ele tenha sido escrito por seus discípulos. Ou seja, o livro de João foi escrito pelos próprios discípulos da única testemunha do evento, além de Pedro. Se João era o único dos discípulos presentes que não fugiu, deveriam os cristãos acreditar que o seu relato, ou seja, o do livro de João, é mais relevante que os outros. E, de acordo com João, Jesus não ficou em silêncio quando acusado pelo Sumo Sacerdote, mas respondeu às suas acusações. Sendo assim o único silêncio que encontramos foi feito por missionários e pastores ao depararem com esse pequeno detalhe.