Porque o Messias da Bíblia não pode ser o mesmo do Novo Testamento?

Como um único verso é capaz de derrubar alguns dos principais pilares da fé cristã?!?

Sem dúvida nenhuma, todas as linhas cristãs, incluindo os chamados judeus messiânicos, acreditam como fundamentais dois pontos que iremos estudar hoje. Após aprendermos um pouco sobre esses pontos iremos analisá-los à luz das Escrituras, ou seja, da Bíblia Hebraica. Afinal de contas, Judeus e Cristãos concordam que a Bíblia Hebraica é a palavra de D’us e que tudo que ela contém é verdadeiro.

Jews for Judaism impedindo trabalho missionário

O primeiro ponto que iremos estudar é muito conhecido. Cristãos acreditam que Jesus era livre de qualquer pecado. Nasceu sem pecado e nunca pecou. Encontramos esses argumentos em algumas passagens do Novo Testamento.

“Visto que temos um grande sumo sacerdote que adentrou os céus, Jesus, o filho de Deus, apeguemo-nos com toda a firmeza à fé que professamos, pois não temos um sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, mas sim alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado.” (Hebreus 4:14-15).

“Àquele (Jesus) que não conheceu pecado, o fez pecado por nós; para que nele fôssemos feitos justiça de Deus.” (2 Coríntios 5:21).

O segundo ponto está diretamente ligado ao primeiro e constitui o fundamento principal do cristianismo: Jesus morreu como um sacrifício pelos pecados da humanidade. De acordo com o cristianismo somente alguém sem pecados poderia realizar um feito desses, da mesma forma que os sacrifícios no Templo não podiam ter defeito algum.

Como conclusão, uma vez que Jesus morreu pelos pecados da humanidade, sua morte anulou por completo a necessidade de qualquer outro sacrifício.

“Porque morrendo, ele morreu para o pecado uma vez por todas…” (Romanos 6:10).

“Não por meio de sangue de bodes e novilhos, mas pelo seu próprio sangue, ele entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, e obteve eterna redenção.” (Hebreus 9:12).

“Pelo cumprimento dessa vontade fomos santificados, por meio do sacrifício do corpo de Jesus Cristo, oferecido uma vez por todas…Onde essas coisas foram perdoadas, não há mais necessidade de sacrifício pelo pecado.” (Hebreus 10:10-18).

É importante ressaltar, que esses princípios são fundamentais no cristianismo, e aceito por absolutamente todas as denominações cristãs. É simplesmente impossível ser um cristão e não acreditar nesses pontos.

Tendo dito isso, levantamos a seguinte questão: O que a Bíblia tem a dizer a respeito disso?????

Obviamente quando digo Bíblia me refiro à Bíblia Hebraica, conhecida pelos cristãos como Velho Testamento. Leve em consideração que no primeiro século do cristianismo, o Novo Testamento não tinha sido ainda canonizado, e para convencer um Judeu a se converter eles precisavam se basear na nossa Bíblia. Vamos entender agora porque não tiveram sucesso.

Se estamos falando sobre o Messias, nada melhor que observamos uma das principais passagens da Bíblia sobre ele. Essa passagem começa no capítulo 34 do livro do profeta Ezequiel.

Do capítulo 34 até o final do livro (cap. 48), o profeta descreve a Era Messiânica. Após lamentar a terrível situação do povo Judeu no exílio, o profeta começa a apresentar uma mensagem de conforto e introduz o principal personagem dessa história.

וְהוֹשַעְתִי לְצאֹנִי וְלֹא תִהְיֶינָה עוֹד לָבַז וְשָפַטְתִי בֵין שֶה לָשֶה וַהֲקִמתִֹי עֲלֵיהֶם רעֶֹה אֶחָד
וְרָעָה אֶתְהֶן אֵת עַבְדִי דָוִיד הוּא יִרְעֶ ה אוֹתָם וְהוּא יִהְיֶה לָהֶן לְרעֶֹה.
וַאֲנִי יְהוָֹה אֶהְיֶה לָהֶם לֵאלֹהִים וְעַבְדִי דָוִד נָשִיא בְתוֹכָם אֲנִי יְהוָֹה דִבַרְתִי

“Portanto hei de salvar o Meu rebanho (povo Judeu), para que não sirvam mais de presa, e julgarei entre uma ovelha e outra. E sobre elas porei um pastor, e ele as apascentará; o Meu servo David é que as apascentará; ele lhes servirá de pastor. E Eu, o Eterno serei seu D’us, e o Meu servo David será príncipe no meio delas; Eu, o Eterno, o disse.” (Ezequiel 34:22-24).

Aqui encontramos uma promessa de D’us ao povo Judeu. D’us vai nos resgatar e nos enviar alguém para nos liderar. Esse alguém é chamado de “Meu servo David” e ele será “Um príncipe” entre nós. Judeus e cristãos concordam que o verso se trata do Messias e é chamado aqui de David, pois existe uma promessa que o Messias seria um descendente de David e seu filho Salomão. (2 Samuel 7:12-14; 1 Crônicas 22:9-10).

Só para confirmar que essa também é a interpretação cristã, vejamos como o teólogo Charles Ryre comenta o verso acima: “Meu servo Davi: Não se trata do rei Davi ressurreto, mas do Descendente maior de Davi, o Messias.” (Charles C. Ryre, Bíblia Anotada, comentário em Ezequiel 34:23, página 1049).

Reparem que além de se referir ao Messias como “Meu servo David”, D’us também o apresenta com outro título: “Meu servo David será um príncipe no meio delas”. Logo vamos entender porque é importante lembrar disso.

Nos capítulos seguintes o profeta começa a escrever belíssimas passagens sobre a restauração de Israel, a reconstrução do Templo (em Jerusalém não em S.Paulo) e destaca a liderança do Messias entre nós.

“E Meu servo David será Rei sobre eles, e todos eles terão um só pastor; e andarão nos Meus juízos e guardarão os Meus estatutos, e os observarão.” (Ezequiel 37:24).

“E habitarão na terra que Dei a Meu servo Jacó, em que habitaram vossos pais; e habitarão nela, eles e seus filhos, e os filhos de seus filhos, para sempre, e David, Meu servo, será seu príncipe eternamente.” (Ezequiel 37:25).

“E os gentios saberão que Eu, o Eterno que santifico a Israel, quando estiver o Meu santuário no meio deles para sempre.” (Ezequiel 37:28).

Como o melhor sempre fica para o final, vamos analisar o verso prometido. Vimos que uma das promessas transmitidas pelo profeta Ezequiel é que David será nosso “príncipe” eternamente.

Já entendemos que se trata de uma referência ao Messias que reinará em Israel no fim dos tempos. Mas, de acordo com Ezequiel, o príncipe fará algo que entrará em conflito direto com os dois fundamentos da fé cristã apontados acima.

Após a descrição em detalhes sobre o Terceiro Templo, o profeta começa a descrever os procedimentos para sua inauguração.

Entre esses procedimentos teremos sacrifícios realizados para purificação do Templo.

Presta bem atenção em cada palavra do verso a seguir e veja o sacrifício que será trazido pelo Príncipe nesse dia.

“.וְעָשָה הַנָשִׂיא בַיּוֹם הַהוּא בַעֲדוֹ וּבְעַד כָל עַם הָאָרֶץ פַר חַטָאת “

“E trará o Príncipe, nesse dia, por ele e por todo o povo da terra, um bezerro como sacrifício de pecado.” (Ezequiel 45:22).

Apesar de estar claro, quero tentar deixar ainda mais explícito. Pelo que vemos no verso acima, a Bíblia nos diz que o Messias trará um sacrífcio para expiar os seus pecados e também o pecado de todo o povo. De acordo com o cristianismo isso é impossível.

Se Jesus é o Messias, não tinha pecado algum e sua morte encerrou qualquer necessidade de sacrifícios, como explicar esse verso?

E tem mais.

Se continuarmos a leitura veremos que nos capítulos que seguem, o profeta nos mostra que o Messias seguirá os mandamentos da Torá, cumprirá Shabat (não domingo) e as festas Bíblicas (e não as católicas), oferecerá sacrifícios no Templo e terá filhos (Ezequiel. 45:16-18).

Alguma semelhança entre o messias cristão e seus ensinamentos?
Parece que não.

Missionários em uma tentativa desesperada de encontrar uma resposta, alegam que esses sacrifícios são simbólicos, lembranças do sacrifício feito por Jesus. Mas voltando para a Bíblia vemos que nossos profetas não dizem isso e sim que os sacrifícios serão ofertas reais, agradáveis e aceitas por D’us como eram no passado.

“Então as ofertas de Judá e de Jerusalém serão agradáveis ao Eterno, como nos dias passados, como nos tempos antigos.” (Malaquias 3:4).

Que tenhamos o mérito de presenciar a vinda do verdadeiro Messias, conforme as profecias que estudamos, e que seja breve. Nessa hora tão difícil para o povo Judeu, tenham em mente os soldados que estão nesse momento lutando por Israel.

Que Hashem os proteja de todo o mal e que retornem vitoriosos.