Rei Ezequias ou o Falso Messias? Quem é o menino de Isaías 9?

Uma das histórias mais dramáticas em todo o Tanach (Bíblia Hebraica) é o relato da batalha entre o Rei Ezequias e Sancheriv, rei da Assíria. A história é tão marcante que se repete em diversos capítulos da Bíblia (II Reis 18-19; Isaías 9-10, Isaías 36-37, II Crônicas  32).

O maior império da época, a Assíria, veio contra o reino de Judá e tomou diversas cidades, inclusive Lachish, a segunda cidade mais importante do reino (leia a legenda da imagem acima). Depois disso, o rei Sancheriv decidiu atacar Jerusalém e marchou contra a cidade com um enorme exército. O rei de Judá era Ezequias, um dos maiores reis que já sentou no trono de Jerusalém.

“Ezequias confiava no Eterno, D’us de Israel. Nunca houve ninguém como ele entre todos os reis de Judá, nem antes nem depois dele. Ele se apegou ao Eterno e não se afastou Dele; guardou Seus mandamentos, os quais o Eterno tinha dado a Moisés. E o Eterno estava com ele; era bem sucedido em tudo o que fazia.” (II Reis 18:5-7).

De acordo com a tradição Judaica, essa história aconteceu na primeira noite de Pesach, o que deixa tudo ainda mais fascinante (Yalkut Shimoni Melakhim 241 e Meguilah 31a, Rashi). Imagina o povo Judeu, sentando em suas casas durante do Seder de Pesach, enquanto do lado de fora, o maior império da terra esperando para destruí-los.

D’us então envia o profeta Isaías com uma mensagem de conforto ao rei Ezequias e ao povo Judeu:

“Assim diz o Eterno: Não tenha medo das palavras que você ouviu, das blasfêmias que os servos do rei da Assíria lançaram contra Mim. Ouça! Eu o farei tomar a decisão de retornar ao seu próprio país, quando ele ouvir certa notícia. E lá o farei morrer à espada “. (II Reis 19:6-7).

Então, da mesma forma que D’us passou pelo Egito e matou todos os primogênitos, nessa noite de Pesach um milagre aconteceu:

“Naquela noite o anjo do Eterno saiu e matou cento e oitenta e cinco mil homens no acampamento assírio. Quando o povo se levantou na manhã seguinte, o lugar estava repleto de cadáveres! Assim Sancheriv, rei da Assíria, desmontou o acampamento e foi embora. Voltou para Nínive e lá ficou. Certo dia, enquanto ele estava adorando no templo de seu deus Nisroch, seus filhos Adramelech e Saretzer mataram-no à espada e fugiram para a terra de Ararat. Seu filho Essar-Hadon foi o seu sucessor.” (II Reis 19:35-37).

Interessante saber que o historiador grego, Herodoto (485–420 aec), ao escrever sobre a historia do Egito, relata que uma praga de ratos atacou o exército de Sancheriv a caminho do Egito, forçando-o a voltar pra casa. Lembre-se que Jerusalém fica bem no caminho entre a Assíria e o Egito. Em honra a isso, os egípcios colocaram uma estátua de Sethos com um rato na mão no templo de Vulcan.

Outro historiador famoso, Berossus da Babilônia, que viveu por volta do ano 340 a.e.c, conta que uma doença atingiu o exército de Sancheriv matando 185 mil soldados durante uma de suas campanhas.

Mas o relato mais importante não veio desses historiadores, e sim do profeta Isaías. Ele dedica os capítulos 9 e 10, assim como 36 e 37, para nos contar essa história. Aqui começa nossa disputa contra os missionários. O capítulo 9 de Isaías começa com um relato estusiasmado do profeta, comemorando a grande vitória como introdução aos eventos que serão relatados no capítulo 10.

“O povo que andava em trevas viu uma grande luz; e sobre os que habitavam na terra de profunda escuridão resplandeceu a luz… Porque tu quebraste o jugo da sua carga e o bordão do seu ombro, que é o cetro do seu opressor, como no dia de Midian…Porque nasceu para nós uma criança, um filho nos foi dado; autoridade está sobre os seus ombros; foi chamado seu nome maravilhoso conselheiro, D’us forte, pai eterno, príncipe da paz.” (Isaías 9:1-5).

Essa grande vitória foi atribuída ao rei Ezequias, pois veio como resultado de sua submissão a D’us e reconhecimento que somente através Dele seriam capazes de vencer.

“E Ezequias orou ao Eterno: ‘Eterno, D’us de Israel, que reina em teu trono, entre os querubins, só Tu és D’us sobre todos os reinos da terra. Tu criaste os céus e a terra…Agora, Eterno nosso D’us, salva-nos das mãos dele, para que todos os reinos da terra saibam que só Tu, Eterno, és D’us’. Então Isaías, filho de Amoz, enviou uma mensagem a Ezequias: “Assim diz o Eterno, D’us de Israel: Ouvi a sua oração acerca de Sancheriv, o rei da Assíria.” (II Reis 19:15-20).

Por causa disso, o profeta Isaías agradece a D’us o dia em que o Ezequias nasceu e por ter sido feito rei de Judá: Porque nasceu para nós uma criança …autoridade está sobre os seus ombros; foi chamado seu nome … D’us forte …” (Isaías 9:1-5). Seu nome foi chamado Ezequias, em hebraico Hizkiahu (חִזְקִיָּהוּ) formado das palavras Hazak (forte), I-a-hu (D’us), D’us Forte.

Isaías entra então no capítulo 10 e continua falando sobre a vitória miraculosa do rei Ezequias contra a Assíria. Uma prova de que os textos estão associados, e portanto só podem estar falando de Ezequias, é o fato de que o profeta usa as mesmas palavras nos dois capítulos.

“Porque tu quebraste o jugo da sua carga e o bordão do seu ombro, que é a vara do seu opressor, como no dia de Midian.” (Isaías 9:3).

“E naquele dia a sua carga será tirada do teu ombro, e o seu jugo do teu pescoço; e o jugo será quebrado.” (Isaías 10:27).

“Ai da Assíria, vara da Minha ira, é como bordão nas mãos onde está a Minha indignação.” (Isaías 10:5).

“…não temas a Assíria, quando te ferir com a vara, e contra ti levantar o seu bordão…” (Isaías 10:24).

“E o Eterno dos exércitos suscitará contra ela um flagelo, como a matança de Midian junto à rocha de Orebe.” (Isaías 10:26).

Da mesma forma que a vitória dos Judeus sobre Midian foi atribuída a Guidon (Gideão, veja Juízes 6-8), aqui também a vitória foi atribuída a Ezequias. A “vara do opressor”,a Assíria, foi quebrada e o povo Judeu foi salvo mais uma vez, na noite de Pesach.

Outra conexão importante está entre o capítulo 9 de Isaías e o sinal dado pelo profeta ao rei Ezequias sobre a derrota dos Assírios no livro de Reis. Logo após o verso sobre o nascimento de Ezequias ele continua:

“Do aumento do seu governo e da paz não haverá fim, sobre o trono de Davi e no seu reino, para o estabelecer e o fortificar em retidão e em justiça, desde agora e para sempre; o zelo do Eterno dos Exércitos fará isso.” (Isaías 9:7).

“A você, Ezequias, darei este sinal: Neste ano vocês comerão do que crescer por si, e no próximo o que daquilo brotar… De Jerusalém sairão sobreviventes, e um remanescente do monte Sião. O zelo do Eterno dos Exércitos o executará’.” (II Reis 19:29-31).

Mas os cristãos tem um problema com isso. Eles não querem que essa história seja sobre Ezequias, e sim sobre Jesus. Para isso eles fizeram algumas alterações, criando dessa forma, o texto favorito dos missionários para provar a divindade de Jesus. Vamos analisar essas alterações.

Alterando o início do capítulo.

Nas versões cristãs da Bíblia, a Igreja alterou o texto Isaías, trazendo o último verso do capítulo anterior (8) e colocando como primeiro verso no capítulo 9. A intenção era alterar o contexto, fazendo assim possível sua associação com Jesus. Veja como eles começam:

“Contudo, não haverá mais escuridão para os que estavam aflitos. No passado ele humilhou a terra de Zebulom e de Naftali, mas no futuro honrará a Galiléia dos gentios, o caminho do mar, junto ao Jordão.” (Isaías 9:1 versão NVI Cristã).

Como todo mundo sabe, Jesus cresceu e passou a maior parte de sua vida na Galiléia (norte de Israel). A verdade é que de fato ele nasceu lá também (Nazaré) e não em Belém, mas isso vamos mostrar em outra hora. Foi lá que ele começou seu trabalho e onde conheceu seus principais seguidores. O objetivo da Igreja foi colocar esse verso no começo do capítulo 9 de Isaías, para que se tornasse então um profecia sobre alguém que viria “no futuro”, honrar a região da Galiléia e também os gentios (não-Judeus).

Mas lendo o verso original, traduzido do hebraico, percebemos que não só está fora de lugar, como também não diz nada daquilo que eles escreveram. Veja:

כג. כִּי לֹא מוּעָף לַאֲשֶׁר מוּצָק לָהּ כָּעֵת הָרִאשׁוֹן הֵקַל אַרְצָה זְבֻלוּן וְאַרְצָה נַפְתָּלִי וְהָאַחֲרוֹן הִכְבִּיד דֶּרֶךְ הַיָּם עֵבֶר הַיַּרְדֵּן גְּלִיל הַגּוֹיִם

“Pois não há cansaço a quem a oprime, como da primeira vez, ele tratou moderadamente, exilando somente a terra de Zebulun e a terra de Naftali, e a última ele maltratou, no caminho para o mar, e do outro lado do Jordão, a região (Galil) das nações.” (Isaías 8:23).

O verso vem encerrar o capítulo 8 de Isaías. Nele o profeta está apontando o descuido que o reino do Norte de Israel teve com a Assíria. No começo os Assírios vieram e tomaram somente as regiôes de Zebulun e Naftali, durante o reinado de Pecah (II Reis 15-16). Mas depois eles voltaram e levaram também o restante das tribos, inclusive aquelas “do outro lado do Jordão“, Reuven e Gad. Leia novamente o verso e veja como o contexto está claro e não bate em nada com a versão cristã.

Alterando o verso 5 (6 na versão cristã)

O principal e mais polêmico verso de toda essa discussão é a passagem onde Isaías fala sobre o rei Ezequias. Com o contexto alterado no início do capítulo, agora os cristãos direcionam esse verso como uma profecia futura sobre o nascimento e divindade de Jesus.

Como vimos acima, o profeta faz uma referência a como seria conhecido o nome desse menino. Um desses adjetivos é “D’us Forte”. Para os cristãos isso é uma prova de que esse menino seria uma divindade. Um detalhe importante nesse verso é que o texto diz que “foi chamado seu nome…D’us forte.”. Como sabemos, muitos nomes em hebraico carregam o nome de D’us, mas isso não faz com que a pessoa se torne divina. Veja alguns exemplos:

Gedaliah – Grande D’us / Tuvia – Bom D’us / Hananiah – D’us Gracioso / Hizkiahu (Ezequias) – D’us Forte

Esses são nomes comuns entre os Judeus, que simplesmente foram dados como forma de engrandecer o D’us de Israel e não de atribuir divindade à essas pessoas.

Em todo o Novo Testamento não encontramos nenhuma menção sobre Jesus ter sido chamado D’us Forte. Seu nome também não tem nenhuma relação com esse verso. Portanto os cristãos cortam do verso a palavra “nome” e colocam o verbo no futuro, mudando a frase “foi chamado seu nome” por “será chamado”. Criando assim a alusão de que no futuro ele seria chamado de D’us forte e tirando qualquer relação com o nome dele.

“Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz.” (Isaías 9:6 versão Cristã NVI).

Veja como no texto original o verbo está no passado e a palavra “nome” está escrita.

ה. כִּי יֶלֶד יֻלַּד לָנוּ בֵּן נִתַּן לָנוּ וַתְּהִי הַמִּשְׂרָה עַל שִׁכְמוֹ וַיִּקְרָא שְׁמוֹ פֶּלֶא יוֹעֵץ אֵל גִּבּוֹר אֲבִי עַד שַׂר שָׁלוֹם

“Porque nasceu para nós uma criança, um filho nos foi dado; autoridade está sobre os seus ombros; foi chamado seu nome maravilhoso conselheiro, D’us forte, pai eterno, príncipe da paz.” (Isaías 9:1-5).

Obviamente que a maioria dos Cristãos não fazem a menor idéia de que isso foi feito com o texto original. Como não têm conhecimento da língua hebraica, ficam reféns de traduções e interpretações de terceiros. Portanto não é de se surpreender que milhões de pessoas leêm esse texto e não entendem como os Judeus conseguem ignorar isso. Se você se deparar com alguém assim, mostre para ele esse artigo e estudem juntos essas informações. Abra os olhos daqueles que querem enxergar. Porque o descendente do rei Ezequias está chegando e vocês não vão querer ficar de fora.