Sem os Sacrifícios do Templo, como fazemos expiação dos pecados?

Respondendo a questão missionária, sobre o sacrifício de Jesus como expiação final dos pecados.

O verso mais usado na evangelização de Judeus é nada mais do que fruto de má tradução e interpretação errada. Missionários abordam Judeus e apresentam o seguinte verso do Novo Testamento:

De fato, segundo a Lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue, e sem derramamento de sangue não há perdão.” (Hebreus 9:22).

O autor do livro de Hebreus está citando um verso da Torá (Levítico 17:11), indicando que somente através de um sacrifício de sangue se alcança expiação pelos pecados. Após ler o verso o missionário te pergunta: Já que o Templo foi destruído, e com isso estamos impedidos de oferecer sacrifícios: Como fazer para expiar nossos pecados? Afinal, está escrito que sem derramamento de sangue não há perdão. Por isso então Jesus derramou seu sangue, para fazer expiação final dos pecados. Somente então, aceitando o sacrifício de Jesus, seus pecados serão perdoados.

Cheque-mate? De jeito nenhum! Esse argumento é problemático por uma série de razões. Vamos começar pelo verso citado. Para essa argumentação, o autor do livro de Hebreus usou o verso de Levitico 17:11. Mas será que o verso está correto? E o que dizem os versos anteriores? Vamos falar de tradução e contexto.

E qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros que habitam entre eles, que comer algum sangue, contra aquela alma tornarei a minha face, e a extirparei do seu povo. Porque a vida da carne está no sangue; e Eu a dei a vós sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto o sangue, ele que fará expiação pela alma. Portanto tenho dito aos filhos de Israel: Nenhum dentre vós comerá sangue, nem o estrangeiro, que habite entre vós, comerá sangue.” (Levítico 17:10-12).

O contexto está claro, não é permitido comer o sangue dos animais. Porque? Porque nele está a alma, ou vida deles, e portanto é usado no processo de expiação de pecados. O verso não diz que “somente” através do sangue se faz expiação, e sim que o uso dele é para expiação. Portanto não deve ser comido.

O texto em questão nem se trata de ofertas de pecado ou das leis de sacrifícios. Isso foi tratado no início do livro de Levíticos. Alías, em todo o detalhamento sobre os sacrifícios de pecado, a expiação só é completa quando a gordura dos animais é queimada no altar.

E queimará sobre o altar toda a sua gordura como a gordura do sacrifício de paz; assim o sacerdote por ele fará expiação do seu pecado, e lhe será perdoado.” (Levítico 4:26).

O sangue faz parte do processo sim, e por isso é proibido comer, mas o mesmo se aplica à gordura do animal.

Toda a gordura será do Eterno. Estatuto perpétuo é pelas vossas gerações, em todas as vossas habitações: nenhuma gordura nem sangue algum comereis.” (Levítico 3:16-17).

Existe ainda mais uma evidência de que a expiação não vem somente através do sangue ou da gordura. A Torá nos instrui de que, se alguém não tem recursos para trazer um animal como oferta de pecado, existe outra alternativa.

Porém, se em sua mão não houver recurso para duas rolinhas, ou dois pombinhos, então aquele que pecou trará como oferta a décima parte de um efa de flor de farinha, para expiação do pecado; não deitará sobre ela azeite nem lhe porá em cima o incenso, porquanto é expiação do pecado; E a trará ao sacerdote, e o sacerdote dela tomará a sua mão cheia pelo seu memorial, e a queimará sobre o altar, em cima das ofertas queimadas do Eterno; expiação de pecado é. Assim o sacerdote por ela fará expiação do seu pecado, que cometeu em alguma destas coisas, e lhe será perdoado.” (Levítico 5:11-13).

Em um outro momento, durante uma das provocações do povo Judeu no deserto, D’us envia uma praga como punição pelo pecado que cometeram. Veja como foi feita a expiação sem sangue:

E disse Moisés a Aharon: Toma o teu incensário, e põe nele fogo do altar, e deita incenso sobre ele, e vai depressa à congregação, e faze expiação por eles; porque grande indignação saiu de diante do Eterno; já começou a praga. E tomou-o Aharon, como Moisés tinha falado, e correu ao meio da congregação; e eis que já a praga havia começado entre o povo; edeitou incenso nele, e fez expiação pelo povo. E estava em pé entre os mortos e os vivos; e cessou a praga.” (Números 16:46-48).

Certo, isso prova que o verso citado no Novo Testamento foi forjado. Mas não responde a pergunta: Sem o Templo como podemos fazer expiação dos pecados?

A resposta para essa pergunta se encontra no discurso do Rei Salomão no dia da inauguração do Templo em Jerusalém. No mesmo dia em que o Templo foi inaugurado, o rei Salomão já anunciou que um dia seria destruído e nos deu a seguinte orientação através da sua oração:

Quando pecarem contra ti (pois não há homem que não peque), e Tu te indignares contra eles, e os entregares às mãos do inimigo, de modo que os levem em cativeiro para a terra inimiga, quer longe ou perto esteja, E na terra aonde forem levados em cativeiro caírem em si, e se arrpenderem, e na terra do seu cativeiro Te suplicarem, dizendo: Pecamos, e perversamente procedemos, e cometemos iniqüidade, E retornarem a Ti com todo o seu coração e com toda a sua alma, na terra de seus inimigos que os levarem em cativeiro, e orarem a Ti voltados para a direção da Sua terra que deste a seus pais, para esta cidade que elegeste, e para esta casa que edifiquei ao Teu nome; Ouve então nos céus, assento da tua habitação, a sua oração e a sua súplica, e faze-lhes justiça. Eperdoa ao teu povo que houver pecado contra ti, todas as transgressões que houverem cometido contra ti; e dá-lhes misericórdiaperante aqueles que os têm cativos, para que deles tenham compaixão.” (1 Reis 8:46-50).

De fato nosso povo pecou, o Templo foi destruídos e fomos levados cativos para a Babilônia. Sem Templo, sem sacrifícios e vivendo longe de Jerusalém, o rei Salomão nos instrui ao arrependimento, confissão dos pecados e súplicas para D’us. Nossas orações passaram a substituir os sacrifícios oferecidos no Templo. E assim nos confirma o profeta Oséias que viveu durante o começo da queda do povo Judeu.

Retorna, ó Israel, ao Eterno teu D’us; porque tropeçaste em tua iniquidade. Tomai convosco palavras, e retornai ao Eterno; dizei-lhe: Perdoa toda a iniqüidade, e ensina-nos o bom caminho; e ofereceremos como novilhos os sacrifícios dos nossos lábios“. (Oséias 14:1-2).

O arrependimento e retorno ao caminho de D’us, sempre foi o método mais agradável a D’us para expiação de pecados. Mesmo quando o Templo esteve de pé em Jerusalém o arrependimento, sem sacrifícios, era aceito para perdoar pecados.

Veja o exemplo do Rei David.

O rei David errou quando tomou para si Bat-Sheva como mulher, estando ainda casada com outro homem. O profeta Natan repreende o rei David e o mesmo reconhece seu erro, veja como o profeta responde.

Então disse Davi a Natan: Pequei contra o Eterno. E disse Natan a Davi: Também o Eterno perdoou o teu pecado; não morrerás.” (2 Samuel 12:13).

David se arrependeu e foi perdoado na hora.

Seu perdão não dependeu de sangue, ou gordura e sim de um coração sincero. Veja como ele mesmo descreve no Salmo que escreveu sobre esse acontecimento:

Eterno, abra os meus lábios, e a minha boca entoará o Teu louvor. Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em ofertas de elevação. O sacrifício para D’us é um espírito quebrado; a um coração quebrantado e contrito D’us não desprezarás.” (Salmos 51:15-17).

Leia o livro de Jonas e veja como o povo de Nínive, a maior metrópole da época, se arrependeu dos seus pecados e foram perdoados. Nenhum sacrifício foi entregue por eles, a não ser a sinceridade de seu arrependimento.

Para os cristãos, os sacrifícios existiam simplesmente para representar o verdadeiro sacrifício que seria feito por Jesus na cruz. Mas Jesus não derramou seu sangue no altar e sim, morreu crucificado. A morte na cruz é por asfixia. A pressão do peso do corpo, sem suporte algum, faz com que o condenado sufoque e morra. Mesmo que Jesus tenha sangrado por ter sido espancado, não foi isso que causou sua morte. Além disso o mesmo verso que eles usam deixa claro, que a expiação somente é feita, quando o sangue é derramado no altar do Templo. Jesus foi morto do lado de fora de Jerusalém. Sem falar da gordura, que completa o processo de expiação. Se o sacrifício era simplesmente uma representação do que Jesus faria, então porque D’us faz tanta questão de queimarmos a gordura??

Um detalhe que não podemos deixar passar. A Torá condena explicitamente o sacrifício de seres humanos. No mais famoso verso do Novo Testamento está escrito:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16).

Mas será que D’us acha que sacrificar seu filho é uma prova de amor? Será que Ele se agrada disso?

Assim não farás ao Eterno teu D’us; porque tudo o que é abominável ao Eterno, e que Ele odeia, fizeram as nações a seus deuses; pois até seus filhos e suas filhas queimaram no fogo aos seus deuses.” (Deuteronômio 12:30-32).

A Torá nos confirma que não precisamos do sacrifício de Jesus, ou de qualquer ser humano ou mesmo animal, para expiar nossos pecados. D’us quer ouvir nossa voz e nossa oração. Assim como um pai quer ouvir seu filho falar com ele, e voltar para ele, assim também D’us quer conosco. E se você pensar que seu pecado é grande demais, que você mesmo não se perdoaria, ainda assim D’us te perdoa. Mas quer saber porque mesmo assim D’us te perdoaria?

Porque os meus caminhos são mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos.” (Isaías 55:9).

Leia e medite sobre o capítulo 55 do livro de Isaías e veja o tamanho do amor que D’us tem por nós.

Que essa mensagem te traga inspiração para se aproximar ainda mais de D’us e dos caminhos da Torá.